Espiritualidade

A espiritualidade desde o princípio

November 21, 2020

Da gestação, nascimento e infância, trabalhando a espiritualidade intrínseca

A espiritualidade é inata e um fator intrínseco do ser humano. Intrínseco, por se encontrar em nossa natureza, parte essencial do ser humano. É inata, porque essa essência já está dentro de nós, desde o princípio das nossas vidas. Ou seja, vem no “pacote” quando nascemos. Porém, ela não é uma característica que simplesmente aparece e se manifesta para sempre, a espiritualidade humana é como uma semente que precisa ser cultivada e cuidada constantemente para se manter viva.

Na infância é muito claro ver esse fator intrínseco e a sementinha que precisa ser cultivada para se manter viva e em crescimento. Os bebês e as crianças estão sempre vivendo no presente, têm uma atenção especial aos detalhes e ao mundo novo a ser descoberto e investigado, com muita curiosidade e encantamento.

A espiritualidade exige grandes esforços a serem desenvolvidos e praticados diariamente.

Os pequenos seres também reconhecem seus pares, seus semelhantes, e nunca os ignoram. Quando eu estava na Romênia, nos dois meses que fiquei na região da Transilvânia fazendo pesquisa de campo em comunidades daquela região, passei bastante tempo com crianças, de diferentes culturas: ciganas, húngaras e romenas. Uma coisa me chamava muito a atenção, essa qualidade das crianças de nunca ignorar outra criança. É como os animais: um cachorro quando está passeando e vê outro cachorro do outro lado da rua imediatamente vai olhar para o outro cachorro, vai querer se aproximar, as vezes brigar, cheirar, enfim, nunca o ignora, eles se reconhecem. Assim também as crianças. Qualidade essa que se não cultivarmos, nós perdemos. Paramos de nos reconhecer no outro, assumimos uma posição de defesa, de exclusão e nos separamos dos nossos semelhantes.

Cabe também a nós não podarmos essa planta e ajudar ativamente, como agricultores e guardiões, para que essa semente germine e cresça. Fornecendo todos os cuidados cautelosos com a espiritualidade de nossos filhos, e dos filhos da nossa sociedade, afinal a comunidade, e não só a mãe, o pai e familiares têm responsabilidade sobre nossas crianças. E mais que isso, sermos agricultores e protetores da nossa criança interior, para que ela também acesse e entenda sua espiritualidade, para assim poder manifestá-la com liberdade e consciência.

Esse cuidado realizado desde o princípio da vida, ou seja, da gestação ao parto, e em todas as fases da infância, adolescência... é feito, principalmente, através de escolhas conscientes principalmente dos cuidadores, mas, repito, de toda a sociedade. Entender como o processo de se formar um ser humano, transformar a chegada do novo membro em um momento especial, com uma acolhida o mais humana possível; compreender as fases neurais de crescimento de um bebê, respeitando cada uma delas, sem querer acelerar o processo. Distinguir nossos próprios traumas, a educação que recebemos, focar no nosso autoconhecimento, para estarmos aptos a não repetirmos inconscientemente padrões - mesmo considerados “normais” - de uma cultura e que vão contra nossa natureza e essa espiritualidade intrínseca do Ser.

“Para mudar o mundo é preciso mudar a forma de nascer”.

O livro O parto de Lua fala justamente dessa chegada e da espiritualidade trabalhada, tanto do bebê, quanto da mãe, a espiritualidade desde o princípio. Ele retrata por meio de poemas e ilustrações como o começo da vida, rodeado de respeito, paciência e autoconhecimento faz aflorar o sagrado nesses dois personagens e isso, claro, reflete-se em quem os rodeia (familiares) e em toda a sociedade. É um ato político e social. E por isso, é também preciso ter atenção e consciência como nascer. Afinal, como disse Michel Odent: “para mudar o mundo é preciso mudar a forma de nascer”. Em outras palavras, fazer com que o princípio da existência humana seja realmente humano e não desnecessariamente mecanizado. Que haja respeito com a nova mãe e a nova vida. Que haja poder de escolha e liberdade para as mulheres. Que haja alcance de informação, para que possamos nos munir de conhecimento e tomarmos decisões conscientes.

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